sexta-feira, 31 de julho de 2009

"O Corpo Sem Orgãos"

“O livro é como um corpo sem órgãos”. Essa definição criada por Deleuze, me fez pensar. Será que talvez ele não queira que pensemos além dos livros? Digo, pode tudo aquilo que superficialmente observamos e estudamos ser, então, um Corpo sem órgãos? Permitam-me explicar melhor.
Nosso corpo exterior é forma, nosso interior, “órgãos” (sentimentos, pensamentos, idéias...) são o conteúdo. Um livro não é nada mais que uma forma. Defenderei meu ponto de vista apoiado em estudos de lingüística e através de Wittgenstein ficará mais fácil entender. Partimos da de uma noção básica: “como posso explicar o que penso? O que eu penso é infinito, e eu apenas disponho de uma série finita de palavras para lhe fazer entender”.
Quando compramos um livro, as palavras nele escritas funcionam como um elo entre o que o autor figurou (com prévias leituras ou pensamentos) em seu gênio e efetivamente escreveu (de forma finita), e a resposta que as palavras tiveram em meu gênio, essa resposta, é o que eu figurei. Quanto mais eu pensar no assunto, mais profundamente (ou não) eu irei figurar. Toda a pessoa, que não tenha a capacidade de ler mentes, figurará a mesma idéia que for repassada (de qualquer forma, escrita, falada...) de forma diferente, por isso, conseguimos tantas opiniões divergentes a respeito de um determinado assunto.
Leram o livro: Um padre e um pedófilo, o livro é a bíblia, a passagem é: “Vinde a mim as criancinhas para que eu as toque” (Lucas 18, 15-17). Na sua cabeça, no seu gênio, em sua figuração, cometeria um pecado o pedófilo? Lucas levou as crianças para Jesus e ele curou suas enfermidades. O que eu pretendo com isso? Calma, não quero que se cometam crimes e saiam impunes. O que estou a dizer a vós, que nisso entra o pensamento de Karl Popper. Pessoas pensam diferente, ninguém tem as mesmas experiências ou são criadas de formas iguais, elas podem ser parecidas, mas jamais iguais, então, não precisaria ser mais respeitada uma idéia alheia a sua?
Sou eu que dou o conteúdo ao livro, ele é apenas forma. Um código de ética, para um político é efêmero, para mim pode ser um livro sagrado, como é uma bíblia para o fanático. Nós que damos o conteúdo a tudo que pode ser conhecido, escritores jogam idéias no ar, minha capacidade de pensar forma o que ele é ou tende a ser.
Como a mesma fórmula não se aplica a problemas diferentes, o mesmo livro não pode ser pensado de maneira igual por pessoas diferentes. É essa unicidade do ser humano que faz com que sejam feitos progressos em prol da humanidade. Mal corresponde ao mestre aquele que não passa de discípulo. O Corpo Sem Órgãos é um livro escrito e não escrito ao mesmo tempo, um livro vazio, que só passa a funcionar organicamente no momento em que eu o leio e dou vida à idéia.

2 comentários:

Joao Henrique disse...

Muito bom!!!
Já refleti há muito sobre o assunto e concordo contigo. Na verdade, "retrocedendo" um pouco mais nesse assunto, acaba-se caindo na prisão lógica que rege nossa vida.

Priscila disse...

Ótimo!!!!
Isso mesmo, esse assunto muito bom e pouco abordado. Cada um tem o seu ponto de vista, o seu modo de interpretar. Mas a opinião do outro é sempre negada.